Na mesa, dois bolos recheados:
de chocolate e de frutas, que beleza!
Um terceiro, de fubá, simplezinho
Juntava-se aos outros, sem realeza...

Parecia um patinho feio
Embora transbordante de carinho
Não tinha qualquer enfeite, só o colorido
do fubá de milho, bem amarelinho...

Hora de cantar "Parabéns prá você
Nesta data querida"...
Olho a minha "cria" em meio aos outros
Era o primo pobre em casa de gente suprida...

Faca em punho, a aniversariante
Inicia a esperada partição
Corta a primeira fatia do bolo de chocolate
Passando-a ao marido, sem hesitação...

Quando vai cortar a segunda
Por lógica, o de frutas recheado
Ouviu-se uma voz que vinha do fundo:
"EU! Quero do da fazenda, o amarelado"...

O chão quase sumiu aos meus pés
Ih, pensei, a pessoa ficou penalizada
Meu bolo ia ficar de lado, abandonado
Massacrado pelo glamour da iguaria industrializada...

E outras vozes se seguiram àquela primeira
"Quero o bolinho de fubá, da fazenda"...
"O bolinho da vovó, tão raro nesses dias...
Os outros estão sempre à venda"!...

Meu bolinho acabou-se num instante...
Dos outros dois restaram alguns pedaços
O bolinho da fazenda, de fubá e amarelinho
Garantiu-me loas e sorrisos, sem contar os abraços...

Cartas de Alforria
Escritos de Regina Coeli


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